|
O funcionário público Rogério Gomes passou mais da metade
dos seus 37 anos com muita dificuldade para dormir. Ele até
contou as noites em que ficou boa parte do tempo em claro:
cerca de três mil. Ele assistia à televisão, ficava no computador,
comia, andava pela casa ou rolava na cama à espera do sono.
No ano passado, Gomes foi ao Instituto do Sono, da Universidade
Federal de São Paulo (Unifesp), na capital paulista.

Era
mais uma tentativa de tentar resolver o problema. Lá, a primeira
lição que aprendeu foi identificar a causa da insônia. Nas
consultas seguintes, descobriu que o que fazia à noite só
servia para mantê-lo mais desperto. Até o banho que tomava
na hora de ir para a cama. "Não tinha consciência de que isso
tudo interferia no problema", conta. "Fiz um processo de reeducação
e treinamento para abolir os hábitos prejudiciais." Hoje,
ele dorme até seis horas por noite. Finalmente fez as pazes
com a cama. O segredo que ajudou Gomes a recuperar o sono
foi a terapia cognitivo-comportamental (TCC), um recurso usado
pela Psicologia para auxiliar os indivíduos a mudar sua maneira
de se relacionar com situações indesejadas. Seu objetivo é
ajudar a pessoa a identificar o que a está levando a viver
determinada circunstância e auxiliá-la a alterar esses gatilhos.
No caso da insônia - mal que atinge cerca de 20 milhões de
brasileiros -, o que se quer é que o indivíduo entenda a relação
estabelecida com o sono, descubra o que está fazendo de errado
e corrija esse caminho. A terapia faz isso a partir do trabalho
sobre dois pilares: a percepção que se tem do problema, ou
seja, em nível cognitivo, e as atitudes relacionadas ao que
se pretende transformar - em termos de comportamento. Daí
o nome de cognitivo-comportamental.

Há
três meses, a TCC, como a terapia é chamada pelos especialistas,
passou a ser indicada como primeira opção de tratamento para
a insônia, antes mesmo dos remédios. A mudança na receita
foi designada pelo novo Consenso Brasileiro de Insônia, concluído
no final do ano passado pela Associação Brasileira do Sono.
"Hoje o tratamento é muito baseado em medicamentos", explica
o neurologista Luciano Ribeiro Pinto, do Laboratório de Fisiobiologia
do Instituto do Sono e presidente da entidade. "Queremos mudar
a conduta do médico e o comportamento do paciente", esclarece.
A nova diretriz será publicada em revistas médicas brasileiras
até o final do semestre. O modelo segue a abordagem já usada
nos Estados Unidos e na Europa. Nesses locais, a TCC tem se
mostrado um recurso imprescindível. Aqui no Brasil, os primeiros
resultados obtidos no Instituto do Sono são animadores. "Até
80% dos pacientes que fizeram a terapia deixaram de tomar
remédios", afirma a terapeuta Maria Christina Ribeiro, especialista
em distúrbios do sono e pesquisadora do instituto.

EQUILÍBRIO
GARANTIDO
Fernanda
usa remédios mais leves e fez terapia. Dorme bem melhor. A
mudança no jeito de tratar a insônia se deve à constatação
de que o distúrbio tem suas raízes mais em questões psicológicas
e comportamentais do que em disfunções orgânicas. Segundo
os especialistas, os pacientes não têm esse entendimento e
manifestam a tendência de enxergar a dificuldade para dormir
como um problema isolado. Não percebem que, na maioria das
vezes, ela é só um sintoma cujas causas podem ser complicações
financeiras, crises familiares ou profissionais, por exemplo.
"Com a TCC, ensinamos o indivíduo a dissociar os problemas",
explica Maria Christina. "Ele desvia o foco da insônia e passa
a administrar as duas coisas separadamente: o problema e o
sono."

MERECIDO
DESCANSO
Após
a terapia comportamental, Gomes consegue repousar até seis
horas por noite É preciso identificar as atitudes que impedem
o adormecer ou nos levam a acordar de madrugada À primeira
vista, para quem está à procura do alívio do sono, pode ser
desanimador pensar que terá de encarar um tratamento psicológico
para resolver um problema que compromete tanto a vida - uma
noite maldormida deixa qualquer um nervoso e desconcentrado.
Uma pílula não resolveria o problema - pelo menos esse - mais
rápido? Sim, mas cobrando um alto preço por isso. Segundo
o neurologista Nonato Rodrigues, da Universidade de Brasília,
quase a totalidade das drogas contra a insônia causa dependência
a curto prazo. "Além disso, provocam prejuízos à memória e
à atenção", afirma Rodrigues.
A
TCC não é uma daquelas terapias sem fim, sem foco, sem resultados
relativamente rápidos. O tratamento consiste geralmente em
seis sessões - uma por semana. Na primeira, o paciente passa
por uma avaliação para identificação, pelo especialista, das
causas comportamentais ou psicológicas do problema. Depois,
recebe informações sobre o sono e a insônia. Nesse momento,
ele próprio começa a identificar a origem de sua dificuldade
para dormir. A partir dessa etapa, é convidado a escrever
um diário sobre o seu sono, relacionando os hábitos associados
à hora de dormir. Esse registro ajuda a detectar mitos e conceitos
errados sobre o sono. Um dos mais comuns é esperar por ele
na cama, mesmo quando ele não vem. Por meio de técnicas específicas,
os terapeutas corrigem essas concepções, no plano mental,
e orientam para a tomada de atitudes práticas, no plano do
comportamento. Em relação a ficar rolando na cama, por exemplo,
fazem uma comparação com o ato de comer. "Ninguém fica na
mesa esperando a fome chegar", exemplifica Maria Christina.
"Portanto, o melhor é ir para a cama quando tiver sono." Outro
equívoco é realizar uma atividade, como meditação ou tomar
um banho morno, e esperar que ela vá fazê-lo dormir melhor.
Tomar
um banho morno antes de dormir esperando que isso ajude pode
trazer ansiedade e piorar a situação Os estudos mostraram
que quando o paciente tem essa expectativa naturalmente fica
ansioso para vê-la realizada. O problema é que ansiedade não
combina com bom sono e o que se tem é o contrário do esperado.
Outra técnica usada na TCC é a chamada intenção paradoxal:
as pessoas são orientadas a fazer força para não dormir. O
resultado é que a maioria pega no sono. Para aumentar o acesso
à terapia, foi criada uma versão para a internet. Em geral,
o atendimento começa com um cadastramento. A condição básica
é ter acesso diário ao computador, e-mail e telefone celular.
No Japão, por exemplo, a maioria dos participantes dos testes
que avaliam a ferramenta preferiu participar do programa usando
celulares. Depois de ganhar uma senha, o interessado em se
tratar online responde a perguntas sobre os hábitos de sono
(a que horas vai para a cama, quantas horas dorme, se acorda
durante a noite) e estilo de vida (se fuma, se faz exercícios).
Horário
para adolescentes

O
sono dos adolescentes tem sido alvo de estudo. É conhecida
a dificuldade que eles têm para dormir cedo e pular da cama
nas primeiras horas da manhã. Geralmente, dormem tarde e acordam
lá pelo meio da manhã. Quando são obrigados a ir para a escola
cedo, é um drama. Muitos não acompanham as aulas, de tanto
sono. Ainda não se sabe exatamente o que ocorre nessa fase
da vida que leva a essa mudança. Há alguns indicativos. O
primeiro seria a ocorrência de um atraso no ritmo do relógio
biológico, causado pelas mudanças hormonais típicas da idade.
Sabe-se que a melatonina, o hormônio que induz ao sono, começa
a ser produzida um pouco mais tarde do que nos adultos. Isso
atrasa o início do adormecimento e posterga o despertar. Existe
também um forte componente comportamental. Eles estão habituados
a assistir à tevê até mais tarde, ficam noite adentro no computador.
Retardam o sono porque demoram a ir para a cama e também porque
ficam mais estimulados mentalmente. A queda no rendimento
escolar derivada das poucas horas de sono começou a preocupar
pais e professores e está promovendo mudanças no horário escolar.
"A solução mais sensata é atrasar os horários de atividades
pela manhã", afirma Luiz Menna-Barreto, da Universidade de
São Paulo (USP). Em São Paulo, a Escola de Aplicação da USP
e a Escola Estadual Francisco Brasiliense Fusco fizeram alterações.
"Os adolescentes que estudavam de manhã passavam boa parte
das aulas com sono. Os menores que estudavam à tarde dormiam
na classe", conta Rosângela Moura, diretora da escola pública.
Os horários foram invertidos. As faltas caíram e as notas
melhoraram. Há iniciativas individuais também. Caio Dini,
14 anos, do Colégio Albert Sabin (SP), trocou de horário para
render na escola. "Ele sentia sono pela manhã. Depois que
foi transferido, virou outro aluno", diz Deise Dini, mãe do
estudante. Além disso, ele precisa dar informações diárias
sobre seu estado de humor e sua disposição. A partir daí,
o programa informa o beabá da insônia, como os fatores de
risco, para só então introduzir as sugestões de mudanças no
cotidiano. Pioneiro na investigação do potencial da internet
contra o transtorno, o americano Lee Ritterband, da Universidade
da Virgínia, acredita que essa é a melhor forma de reduzir
o impacto mundial das noites em claro. "Vimos que esse tipo
de intervenção pode melhorar o sono, o estado de humor e as
funções cognitivas, como concentração e aprendizagem, prejudicadas
pelo pouco sono", afirma o médico, baseado em uma pesquisa
recente financiada pelo Instituto Nacional de Saúde dos Estados
Unidos.
VISÃO
E MEDICAMENTO
Giovanni
usou técnica de visualização e Regina trata a depressão para
vencer a insônia Além da TCC, outra novidade tem empolgado
os especialistas: o treinamento com imagens mentais, que associa
técnicas de respiração e relaxamento com a visualização. O
objetivo é levar o paciente a relaxar antes de dormir e criar
imagens mentais para eliminar o fator estressante que pode
estar por trás da briga contra o sono. Por exemplo, se é um
cachorro que late sem parar, pode-se imaginar que o animal
está num barco que vai levá-lo para muito longe. Se o que
incomoda é o ranger da porta, pode-se colocar o barulho em
uma caixinha e jogá-la no lixo. "O insone é uma pessoa que
rumina preocupação e ansiedade. Sem perceber, alguns também
selecionam e monitoram estímulos que atrapalham o sono. É
necessário trocar essas atitudes mentais por outras mais tranquilas",
explica a bióloga Yara Molen, de São Paulo. Ela estuda o desempenho
do método desde 2006, como tema de uma pesquisa de doutorado
conduzida na Unifesp. Até agora, 80 pessoas foram submetidas
ao processo. Os resultados são bons. "A maioria aumentou seu
tempo de sono entre 38 minutos a uma hora e meia", conta Yara.
"Outros mudaram a percepção que tinham da qualidade do próprio
sono." O engenheiro de sistemas Giovanni Celestre, 48 anos,
por exemplo, submeteu-se a dez sessões para colocar abaixo
as barreiras que interrompiam o seu sono e o faziam trabalhar
mais para compensar a falta de concentração. "Minha insônia
deixou de ser crônica e eu sei que se uma noite for ruim,
na outra vou dormir bem", afirma.
A
recomendação é que os remédios apresentem baixo risco de dependência
e que sejam tirados aos poucos
A
ascensão das duas modalidades de tratamento é o sinal evidente
de que o moderno controle da insônia baseia-se principalmente
em opções mais delicadas. Meditação e acupuntura, por exemplo,
encontram-se entre elas. "Elas atuam na redução da ansiedade
e no controle do stress, dois fatores que levam ao problema",
afirma o médico e acupunturista Hong Jin Pai, do Hospital
das Clínicas de São Paulo (HC-SP). Porém, há situações na
quais só as terapias não farmacológicas não bastam. "Não é
raro a insônia estar associada a alterações e transtornos
mentais, como a depressão", diz o neurologista Flávio Aloe,
coordenador do Centro Interdepartamental de Estudos do Sono
do HC-SP. Nestes casos, o remédio ainda é indispensável. Contudo,
a necessidade de usar medicamentos é algo que nem todos aceitam
de imediato. A massagista e ex-publicitária Regina Chagas
Paganoni, 42 anos, por exemplo, ficou surpresa ao saber que
estava entrando em depressão porque não dormia bem havia pelo
menos dez anos e teria de tomar antidepressivo. "Demorei a
me acostumar com a ideia", lembra. Medicada, voltou a dormir
e hoje trabalha com disposição. Segundo o novo modelo de tratamento
em vigor agora no Brasil, nos casos nos quais há real necessidade
de remédio, o ideal é escolher entre as versões mais modernas
de algumas medicações - elas apresentam menos risco de dependência.
Algumas, entretanto, ainda não estão disponíveis no País.
Depois, a recomendação é que o medicamento seja retirado aos
poucos, com o apoio de terapias como a TCC. É nesta fase que
se encontra a cabeleireira Fernanda Aparecida dos Santos,
27 anos, de São Paulo. Ela chegou a tomar três remédios por
dia, e, ainda assim, não dormia. Hoje, quase um ano depois
de ter começado a terapia, não usa mais medicamentos fortes
e consegue, finalmente, fechar os olhos e se entregar ao sono.
"A noite agora não me assusta mais", diz.


Fonte:
http://www.terra.com.br/istoe/edicoes/2058/artigo131917-3.htm
|